
O nosso tempo é um convite aberto a descobertas de materiais, formas, combinações infinitas e sensações. Muito além das tendências, nosso olhar nos conduz aos encantos de observar detalhes e imagens que se desenham ou se projetam diante de nossos olhos de formas inusitadas, ou talvez seja apenas o novo sendo apresentado nos territórios do design.
Linguagens narrativas se desenvolvem criando conceitos em páginas físicas ou digitais através dos criativos que buscam desafiar as barreiras já conhecidas e nos surpreender com novos caminhos. Transparência significa clareza, uma filosofia de projeto ético e linguagem estilística. Transparência como possibilidade de conexão, deixando a luz fluir sem barreias no sentido de liberdade. O meu convite aqui é deixar-se levar pelas sensações novas que o termo apresenta de maneira tangível ou intangível.

PALAZZO LITTA, BY MOSCA PARTNERS
A descoberta através do tecido não se limita a estação ou coleção, mas à sua atemporalidade e infinitas possibilidades de uso e transformação. Na moda, a leveza e a transparência se entrelaçam, criando camadas de cor ou textura onde nada é permanente ou de aspecto definido. A luz e as sobreposições desenham novas sensações cromáticas e novas possibilidades de sensação da matéria. Tudo parece o mesmo, mas nada é igual ao que vemos agora. As pesquisas e o desenvolvimento tecnológico se somam à criação e instigam a imaginação. Até mesmo bolsas e calçados transparentes revelam de uma certa forma o que há dentro de nós mesmos. Tudo é sugerido, e tudo depende de como vemos e sentimos os objetos, os ambientes, a moda, o design. Pontos de partida que nos são oferecidos gentilmente, e que nós completamos com sentido através dos sentidos.
A transparência pode ser o que já conhecemos ou dominamos através de materiais como vidro, papel, tecido, plástico, acrílico, entre outros que se apresentam em nosso entorno, com sua dimensão material em infinitas possibilidades. Mas quando pensamos no quanto a dimensão imaterial é significativa e instigante, o horizonte se estende.

ALCOVA MILANO
Uma instalação de Piero Lissoni para a SanLorenzo, durante a Milano Design Week deste ano, trouxe um Iate em forma tridimensional suspenso no espaço, em escala e dimensões reais, com tecidos semitransparentes criando efeitos de luz e sombra onde a silhueta do próprio Iate se destaca ou se funde. As velas projetadas convidam à interação e se entrelaçam, tornando-se um labirinto de descobertas. No coração do projeto reside a ideia de que o design possa superar a matéria e se transformar em percepção: uma linguagem feita de luz, transparência e ritmo, mas igualmente de tempo, poesia e transformação.

PIERO LISSONI PARA SANLORENZO
Para além do tecido, o vidro tem se tornado centro das atenções, deixando de ser apenas um material estrutural para se tornar um elemento ativo de design. Ganha destaque através de novas texturas, reflexos profundos e, principalmente, pela interação com a luz e com outros elementos.

ROSSANA ORLANDI
O vidro, descoberta atribuída aos fenícios, evoluiu alimentado pela curiosidade e pela engenharia humana, até se tornar uma das técnicas mais sofisticadas, seja artesanal ou industrial. Os romanos aperfeiçoaram a técnica do vidro soprado, criando inúmeros objetos, de utensílios a pequenos objetos de decoração. Após a queda de Roma, a arte em vidro seguiu para Bizâncio e, posteriormente, floresceu em Veneza no século XIII, que transferiu todos os fornos para a ilha de Murano, na intenção de prevenir incêndios na cidade, mas também, pode-se dizer, como forma de proteger os segredos das técnicas dos mestres vidreiros. Ali foram criadas as mais incríveis e extraordinárias técnicas, como o vidro cristal, altamente transparente e denominado puro, as murrinas e o filigrana. Murano se mantém até hoje como centro de referência e excelência mundial da arte do vidro soprado.

PALAZZO LITTA, BY MOSCA PARTNERS
Esta brevíssima história ilustra o desafio de dominar a arte do vidro: a beleza que atravessa séculos, o local que permanece sinônimo de preservação desta cultura, mas também de criação e inovação.
Percebo a grande quantidade de designers que avançam seus estudos em projetos que desafiam e reinterpretam as técnicas tradicionais de fabricação. Podem usar em seus projetos a perfeição polida como acabamento, ou abraçar irregularidades e distorções formais para criar objetos expressivos, espontâneos, orgânicos, podemos dizer, incrivelmente indomáveis. Formas delicadas de tamanhos e texturas diferentes, composições estéticas aparentemente instáveis ou irregulares, reposicionam a sensação de fragilidade como força expressiva e conceitual.

ROSSANA ORLANDI
Grandes janelas ou paredes de vidro expandem o olhar e a sensação de estar em espaços abertos, de viver a natureza ou o lugar de maneira integrada. Objetos decorativos, luminárias ou copos constroem memórias afetivas, fazem parte do imaginário coletivo, perpetuam histórias e compõem acervos de família ou de antiquários. Exposições e semanas de design nos permitem conhecer as conquistas deste material, que utiliza transparências em camadas, cores e reflexos para criar ambientes arquitetônicos mais sensíveis e personalizados, principalmente quando a ideia de iluminação é pensada como algo emocional, e não puramente funcional.

DIOR X NOÉ DUCHAUFOUR-LAWRANCE
Material reciclado, técnicas de lapidação, espelhamento e jateamento criam jogos de luz e sombra, proporcionando uma experiência visual integral e única.
Os vidros soprados são incomparáveis pela história, pelo significado, pela unicidade. Formas fluidas, orgânicas, espontâneas, esculturais, formas facetadas: o vidro ganha espaço, produz leveza, convida à beleza de novos designs que permitem descobertas contemporâneas inusitadas, vivências que interagem com objetos.

ROSSANA ORLANDI
Vestir o espaço com sentimentos que reflitam nosso estilo de vida. Onde as camadas do vestir e do morar sejam feitas de luz natural, ou luz projetada com a descoberta dos efeitos e das nuances de tonalidade de um nascer ou de um pôr do sol, da incidência de brilho natural e de recantos que falem ao coração. Que reflitam nossa filosofia de vida e os valores que fazem sentido diante de um mundo fragmentado e massificado, migrando, cada vez mais, para a composição da leveza, para significados pessoais do ser. Um reflexo de uma estética que traduza nosso jeito de viver, na beleza particular que constrói nossa percepção de espaço em camadas de transparência, atravessando nossas vidas com ética, essência, verdade e sensação.





