Encanto Renascentista 

Postado em 28/06/2021

Texto por: Beth Venzon

A Alta-Costura, entre seus inúmeros encantos, mantém vivas tradições, iniciadas há séculos. A preciosidade do feito à mão, a valorização dos fazeres, as técnicas têxteis e os bordados estão presentes de forma surpreendente e, podemos dizer, que fazem de cada peça uma obra prima.


Muitas mudanças ocorreram desde o início deste sistema que começou há mais de 150 anos. Tornou-se cada vez mais restrito, mas continua sendo espaço do luxo e laboratório de criatividade livre, preservando histórias e memórias, valorizando pessoas apaixonadas com mãos hábeis em fazer com carinho e excelência ponto por ponto, na demora do tempo das agulhas costurando fabulosas narrativas estéticas.  

A cada temporada de desfiles de Haute Couture, sempre surpresas. Além do local, da música, da coleção, da atmosfera toda, hoje vivenciamos novos formatos que mesclam tecnologia, arte, cinema, enfim, diálogos construídos pela genialidade e sensibilidade de diretores criativos. Tudo muito bem conectado com resultados que são verdadeiros presentes em espetáculos únicos e incríveis. Cada vez mais impactantes quando o assunto é emoção.   

A coleção Christian Dior Spring/Summer 2021 trouxe à tona a sedução de histórias e narrativas que cruzaram as linhas do tempo numa atmosfera onírica e sedutora. Resgates de momentos de Christian Dior são revelados e inspirações entre a arte renascentista e seus tecidos, num importante desenvolvimento têxtil, parecem sair das pinturas dos grandes mestres daquele tempo. Uma atmosfera banhada pela luz dourada em cada cena acentuando todos os detalhes da arte de tecer os fios e dos bordados feitos pelos artesãos dos ateliers da Maison Dior. 

Uma história a partir das cartas do Tarot, com imagens e ilustrações do século XV. Um filme realizado por Matteo Garrone, tendo como local o Castelo de Sammezzano, Florença, e as magníficas criações circulavam, corriam, flutuavam entre as paredes históricas, como uma viagem de (re)descobertas pessoais, plena de símbolos e significados. 

“Maria Grazia pediu-me para imaginar uma história sobre o mundo do Tarot que desconhecia. E talvez, por isso mesmo, tive a ideia de filmar uma viagem introspectiva, empreendida em busca de si, na qual o protagonista enfrenta provas ao encontrar as figuras dos Arcanos”, diz Matteo Garrone.

Em cada peça, o Savoir Faire foi evidenciado com maestria. Contraste nas criações com a leveza da seda esvoaçante que parecia fazer flutuar ao acompanhá-la com o olhar, ao mesmo tempo em que se aproximava dos pesados brocados, jacquards, fortalecendo os laços com o têxtil histórico.  A presença de veludos devorês, de rendas com bordados e pinturas, resgatando técnicas do século XVIII, desenhos que se tornaram um capitulo à parte em detalhes tão preciosos como joias. Valorização dos mestres das oficinas que mantêm viva a tradição e das mãos habilidosas que os constroem com a leitura contemporânea dos símbolos e elementos habilmente desenhados. Fascinação!

Uma coleção repleta de simbologias de um (re)nascer e de um (re)encontro na sua individualidade; um mergulho, como uma fenda no tempo, que Maria Grazie Chiuri nos conduz em narrativa poética a Itália renascentista, mas com luz contemporânea. Um filme dirigido por Matteo Garrone, que apresenta a coleção e lhe dá mais encanto ainda, elevando todos os sonhos, fantasias e inspirações promovidos pela Alta-Costura.