Invólucros de Emoção  

Postado em 21/06/2021

Texto por: Beth Venzon

A moda registrou, no último ano, as transformações e os anseios que são reflexo do seu tempo, comunicando-as com muita criatividade e emoção – como uma forma de propor energia para seguir em frente. Fragmentou momentos e apresentações das coleções em espaços e tempos próprios a cada marca e criador, rompendo alguns ciclos e construindo novos.  Sensibilidade em diferentes conexões e parcerias foram apresentadas. Atravessamos tempos difíceis e complexos, onde a esperança se torna palavra presente.  As emoções falam alto, a necessidade de afeto e proteção tem nas criações a extensão estética evidenciada em formas, texturas e sobreposições. Abraços e afetos traduzidos na moda que emociona. 

Vestir o corpo não é apenas vestir um tecido, mas é dialogar com este e seu entorno. Por isso, os sinais que se transformam em tendências são portadores dessa mensagem, que neste momento exige acolhimento.  

Quem lembra dessa técnica tão antiga chamada Matelassê? Vou contar um pouco da sua história e, ao mesmo tempo, como pode ser interpretado em chave contemporânea. 

O Matelassê, que é o efeito acolchoado, foi usado em roupas de batalha há muitos séculos atrás. Chegou na Europa no século XV e foi aplicado mais amplamente nos anos de 1700. Basicamente são aquelas costuras que cruzam o tecido formando desenhos geométricos com mais ou menos volume de enchimentos, usado em diferentes situações. 

Entre a técnica e a criação, a sua evolução foi constante, bem como o uso destas peças se tornou muito significativa.  Desafios e experiências criativas mostraram diferentes formas e usos em jaquetas e casacos matelassados no século XX. 

O estilo característico com efeito de bordado, passou para a criação de peças de proteção contra frio e vento desde os anos de 1930 e foi usado pela primeira vez numa peça de Alta Costura em 1937 por Charles James.  Esse conceito ganharia espaço nos anos de 1970, ainda sendo visto como vanguarda, multiplicando formas e inovando em propostas. Lembrando que o matelassê estava relacionado também a colchas, edredons e robes de quarto. Neste período a ousadia foi criar o sleeping bag coats, pela estilista Nora Kamali. Inovação que não parou mais. 

Volta à cena com muita força nos anos 1980 e seu uso criativo e com inúmeras possibilidades de aplicação tem ganhando cada vez mais espaço. Passou para o streetwear e seu destaque foi impressionante.  

No século XXI a técnica em diferentes bases e conceitos tem seu retorno com força criativa. Muito além das peças já conhecidas, seu conceito tem se potencializado na multiplicidade de estilos, nos volumes maximizados, na leveza dos materiais e nos códigos de suas mensagens. 

Das inúmeras iniciativas, destaque para o projeto Moncler Genius, marca italiana que vem se renovando e inovando com novos caminhos criativos. Suas peças base são jaquetas, mas seus convidados para coleções cápsulas, em livre interpretação, encantam e renovam toda imagem e significado dessa técnica e marca. Entre eles, Pierpaolo Piccioli, Simone Rochas, Richard Quinn, J W Anderson, Craig Green. 

Outro projeto colaborativo muito bacana é da Gucci com a The North Face, que além das cores e padronagens, mostra nova propostas para os matelassados com muita emoção e diversão.   

Ampliando ainda mais o leque de opções, chama atenção a variedade de coleções que tem apresentado interpretações incríveis para esse tema de forma mais sutil ou de forma intensa. Das passarelas às ruas, observamos o potencial e as inúmeras variações em infinitas possibilidades, principalmente com destaque para oversize. 

A Ikea lançou há pouco o edredon para usar, denominado Fältmal. Em forma de travesseiro, fácil de transportar e, quando aberto, envolve o corpo todo. Com linhas simples e formas macias é ótimo para os dias frios e de contato com a natureza, no desejo de liberdade.  

É importante observar que além de seu valor estético outros significados se fortalecem nesse momento. Mais do que aquecer o corpo essas peças se mostram como um grande abraço que envolve e protege em meio a tantas inseguranças. E sua presença parece sempre estar sinalizando esses novos caminhos/conceitos em tempos complexos em busca de aconchego e força para seguir adiante.

Quando os volumes leves e macios envolvem o corpo, protegem e promovem novas possibilidades plásticas. Os matelassês ganham protagonismos criativos mesclando o ontem e o hoje, embalando o futuro.  

O desejo é de movimento, de comprimentos extralongos que prolongam o corpo e  a proteção, mas também lhe conferem protagonismo.  

Aspectos que unem tecnologia, criatividade e novos caminhos estéticos.